Conheça a história do produtor e Dj Carlos Nunez

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O Dj e Produtor Carlos Nunez anunciou recentemente na sua página do Facebook que irá começar a sediar aulas para passar a frente todo o seu conhecimento de produção e discotecagem. Carlos é nosso amigo há muitos carnavais (não estamos autorizado a contar quanto são), então chegamos no estúdio dele pra conferir o que vai vir por ai. De quebra, rolou uma entrevista sobre toda a carreira do Carlos. TODA MESMO. Tire 15 minutos do seu dia para conhecer mais da história do Carlos.

Como você começou na música?

Bom…como qualquer adolescente eu comecei a me interessar por música nos 13, 14 anos, música de verdade. Chegar e ouvir a música. E por sorte, acho que ai é o ponto que me fez ir pra esse lado que estou hoje, foi ter um amigo que era dj na época, o que hoje dia é fácil encontrar em qualquer esquina né. Isso por volta de 94, 95, esse meu amigo fazia festinha de garagem e tinha um equipamento bem humilde. Nessa época, quem tinha acesso equipamento grande era quem vivia disso, só dj grande – e eram poucos os djs que tinham isso, equipamentos como as Technics. Hoje em dia tem mais acesso, ainda é caro, mas tem.

E esse meu amigo tinha uma noção musical. Ele sabia mixar e tudo mais (ele era meu vizinho de parede). E ai eu comecei a me interessar, eu já gostava de música, comecei a gostar mais ainda, e comecei acompanha-lo. Me ofereci para ser tipo um ‘roadie’ dele. Ele ia na festa e eu levava as caixas, ele me ensinava onde ligar os cabos e eu ficava ali de reserva, só olhando ele fazer as coisas.

Na época ele já trabalhava como office boy, e eu não trabalhava ainda. Então eu pedia pra ele deixar os equipamentos em casa enquanto ele trabalhava. E…pô, foi o maior chororô até ele deixar, quem tem equipamento tem o xodó, não empresta pra qualquer um, assim…. E ai ele começou a deixar em casa, e eu ficava o dia inteiro testando com vinil de verdade – naquela época não tinha CD – e eu ficava em casa, o dia inteiro brincando e treinando. Foi ai que eu comecei a entender como funcionava, mas sozinho. Mexendo e fuçando. Mas isso era alternado. Tinha dia que ele deixava, tinha dia que não, passava mês ele não deixava, e ai…..pô, a vontade já estava ali de querer fazer aquilo né. Ai passou mais alguns anos, e finalmente meu pai conseguiu me dar um aparelho – nisso eu já estava com 17 anos. Ele conseguiu me dar uma cdj da Denon, a DN-HD2500 ( era aquela dupla e tal). E eu comecei a tocar ali, comecei a ter meu próprio equipamento e eu ficava em casa me dedicando a isso. Sempre tocando em festinha e brincando, mas nada sério.

E quando foi que você falou ‘ah é isso que eu quero’?

Ah então, ai foi um pulo. Eu estava com 17 anos, comecei a tocar, comecei a me aprimorar naquilo né, dj de quarto rs. Tocava só em casa, brincava, conhecia todo mundo, conhecia tudo , mas só em casa. E ai eu comecei a me dedicar mais na parte de produzir do que tocar. Por que eu podia fazer em casa, começou a chegar a internet, você tinha acesso a outras pessoas sem precisar sair de casa, aquele contato com o mundo afora. Isso era mais ou menos em 2001 quando eu comecei a mexer com produção, brincando em casa e tal. Fui me aprimorando até que em 2005 na época de Orkut, eu conheci um parceiro do Rio de Janeiro, o Victor Arlé, numa comunidade de software musical e a gente começou a trocar ideia. Eu ensinei muitas coisas pra ele e pra outros que estavam lá, porque eu comecei a aprender muita coisa sozinho e eu comecei a passar pra frente o que eu já conhecia. Ele tinha uma ideia da gente fazer um projeto pra gente começar a lançar nossas músicas, fazer um projeto juntos, uma parceria, foi ai que o Pristine Blusters nasceu, em 2005-2006 mais ou menos.

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Com o Pristine Blusters, o Victor veio pra São Paulo e como ele tinha mais contatos que eu, ele começou a arranjar par gente tocar. Ele conhecia mais pessoas, ele já conhecia a cena enquanto eu estava meio por fora, nessa época eu já tinha filho, estava casado, estava em casa, tinha deixado de lado o sonho de viver de música, porque tinha que pagar conta, tinha família em cima, tinha filho. E a gente sabe, precisa escolher uma hora ou outra, não da pra ficar se dedicando a outra coisa.
Mas ai ele vindo pra cá, ele começou a me mostrar que a gente tinha uma porta aberta pra gente fazer essas coisas. A gente começou a tocar aqui, ali, eu comecei a me empolgar, a fazer musicas mais elaboradas, mais legais, o projeto começou a render bastante coisa legal – lá fora principalmente – a galera gostava do que eu estava fazendo. Paralelo a isso, eu acabei entrando numa banda de rock, a La Raza. na banda eu era o dj. A gente começou a tocar em vários lugares legais também, e estava dando certo – tudo paralelamente. Eu estava trabalhando como administrador de dia, de gravatinha. Mas a cabeça estava a milhão na música, querendo produzir mais e mais, porque o Pristine estava dando certo e a banda estava começando a fazer tour em várias partes do Brasil. E minha cabeça estava ficando maluca, porque o trampo registrado em carteira pagava bem, mas a música estava falando mais alto, eu estava querendo fazer outras coisas, e querendo me distanciar cada vez mais disso.

Ai eu cheguei mais ou menos em 2009, e resolvi largar tudo o que estava fazendo. Larguei o trampo assinado em carteira, pedi as contas, o que foi muito arriscado pra mim na época Eu já não morava com a mãe do meu filho então eu tinha que pagar pensão pra ele, tinha aluguel, tinha um monte de coisa, enfim….mas é aquele dilema da vida né: Ou você faz isso ou faz aquilo, eu tinha que escolher um lado. E eu já estava de saco cheio já, e falei ‘ vamos tentar’.

Ai tentei, larguei o trampo, larguei mulher, larguei o filho, e fui me dedicar a música. E passei mais ou menos uns 2 anos ai, numa coisa meio obscura, porque não tinha dinheiro.

Era uma situação difícil, porque eu não tinha uma renda fixa mais, sabe, e era tipo começar do zero, porque a cena já esta constituída, é difícil você se infiltrar no meio de uma coisa. Se você é um cara desconhecido, você precisa criar contato, começar a criar amizade, e assim né, e ai eu comecei do zero, zerou tudo a minha vida ali. Eu passava madrugadas e madrugadas cada vez mais mastigando o software, e aprendendo cada vez mais técnicas nesses dois anos. Acabei trocando o dia pela noite, eu acordava as 5 da tarde e ficava a madrugada inteira produzindo, maluco, e ai começou a sair coisas mais legais. Só que, eu tinha que ter um ganha-pão. Isso não estava dando dinheiro né, eu passei uns 2 anos nessa. Ai em 2010, por contato desse mesmo amigo o Victor, ele me conseguiu colocar num campeonato de DJ’s nacionais, o Red Bull Tr3styles, que também foi uma grande luz pra mim, porque era só a galera que já tocava na noite, que tinha uma carreira estabelecida e eu não era ninguém. E ele acabou me colocando lá, o que foi legal pra caramba, mesmo sem eu saber. “ó você tá inscrito, daqui a 2 semanas você vai competir”.

E ai fui pra lá, foi legal pra caramba, mostrei pra galera o que sabia fazer e era tipo aquele azarão, que entra no meio da corrida, ninguém conhece e acabou dando certo. Acabei sendo reconhecido, acabei meio que me infiltrando no meio dos caras que estavam ai há muitos anos, fiz bastante amizade, conquistei reconhecimento de outras pessoas que era importantes, e a partir dai a coisa foi melhorando. Fui me dedicando cada vez mais a produzir, e a tocar mais, consegui de lá pra cá comprar equipamentos que eu não tinha, por intermédio seu também – você sabe dessa história – que eu consegui me estabilizar, arrumando um emprego na Fábricas de Cultura, que me deu um pouco mais de tranquilidade de viver de música, ganhar dinheiro com música e fazer uma outra coisa que era a minha carreira, a parte disso, mas música 100% do tempo.

Independente do tempo se era paga ou não, era música na hora que acorda, música na hora de dormir. E ai que eu acabei, por intermédio desse lance das Fabricas de Cultura, caindo no meio de uma cena que não me imaginava estar, que é o funk paulista.

Por trabalhar nas periferias e ter contato direto com o funk, porque lá o funk domina 100%. Logicamente que antes eu já tinha uma pré-disposição, gostava, admirava o ritmo, só que não era tão intimo. Mas ai, por trabalhar todo dia, gravando – trabalho no estúdio lá – tendo que trabalhar com MC’s, gravando MC o dia inteiro, você acaba tendo uma outra visão da coisa. Você pode se aprofundar mais, tentar mudar um pouco do que esta a cena, porque tem uma visão do que os produtores estão fazendo do que os MC’s estão cantando, e por essa experiência de já estar ai por tantos anos, sabe que você pode somar ritmos , somar elementos que não são originários desse estilo musical.

Ai eu comecei a gravar e produzir alguns MC’s e acabei achando legal aquilo, agora já faz parte de quando falam de mim ou do meu trabalho, tem que estar associado ao funk. Não o funk puro, mas o funk somado com outras coisas, que eu sempre gosto de fazer. Gosto de somar estilos diferentes, ou elementos diferentes num funk que já existia.

Teve alguma festinha que você marcou como a sua primeira festa? Aquela que foi o seu primeiro pagamento.

Tá….então, não chegou a ter um pagamento mas eu coloco essa como a primeira festa, foi quando eu tinha 19 anos. Eu vi que tinha um anúncio – a internet ainda estava engatinhando ainda –mais ou menos em 98/99, eu acabei fuçando e vi que tinha um concurso de Djs. Uma casa que provavelmente falou que o melhor colocado seria residente, bla bla bla, aquela coisa de sempre, que nunca é verdade. Não caiam nessa! rs Isso nunca funciona a pessoa vai com a esperança de que vai ganhar e tal. Enfim, fui lá e fiz o teste e fui aprovado. E eu fui mesmo como um dj profissional, foi ali que eu vi que poderia fazer aquilo. Ai eu fui e levei uma galera minha e modéstia a parte, toquei muito bem, todo mundo curtiu muito, entre os que estavam lá, só que não deu em nada pra variar. Como em outras competições que já participei, mandei bem e não deu em nada. E eu acho que foi essa a primeira, mais ou menos em 99, não me lembro a data, mas foi nesse campeonato. Eu ainda não estava me dedicando 100%. Ainda estava vivendo aquele lance de trabalhar e treinar…

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Desde o início até agora, qual foi a sua pior fase da sua carreira, em que você pensou em largar tudo?

Isso rolava diariamente. Sempre rolou esse conflito. Todo dia que eu acordava, por mais que eu pensasse ‘ estou me dando ao máximo, estou fazendo o melhor’ e vendo que existe aquela turma fechada, aquela panela, que mesmo que você faça uma coisa legal, uma coisa nova, eles não vão te reconhecer, eles não vão te dar espaço porque acham que você esta roubando um lugar de alguém, muito pelo contrário, você quer somar, você quer estar junto. Mas eles pensam dessa maneira, então desde o campeonatinho, de lá pra cá, foi só decepção. E ai, quando eu fiquei sabendo que seria pai, ai que foi mais complicado ainda. Isso foi em 2004. Final de 2004, começo de 2005, pensei “agora acabou. Vou ser pai de família, Trabalhar de gravata atrás de uma mesa. Vou brincar de fazer música. Vou ter o meu equipamento em casa, talvez, e brincar de fazer uma musiquinha pra soltar na internet ”, nunca pensando em viver disso.

E quando foi o momento em que você abriu os olhos e se posicionou, quando você soube levar a sua carreira e levar o seu trabalho do dia-a-dia.

Depois de 2011, quando eu comecei a trabalhar na Fábrica de Culturas que eu pensei, porque até ali eu estava com a corda no pescoço preocupado em pagar a pensão do meu filho. Mas ai quando veio o trabalho assinado, e eu fiquei estabilizado, eu pensei que ali eu poderia investir mais em mim e ficar mais tranquilo, porque eu não tinha mais o peso das contas do mês. Eu sabia que estaria ali todo mês, pagando as contas e vivendo do que eu queria fazer, me dedicar a isso.

Você acha que isso influencia na sua música, no seu trabalho?

Muito, muito cara. Assim, eu confesso que são…sei lá, é uma faca de dois gumes. Nessa época que eu estava sem trabalhar, que eu fiquei uns 2 anos no buraco, eu acho que eu era mais criativo no sentido de como eu tinha o tempo todo livre, então eu poderia testar muito mais coisas. Mas ai vinha aquela preocupação de ‘como eu ia pagar as contas’. A preocupação batia na porta todo mês, tem que pagar, tem que pagar tem que pagar. Só que ai como eu tinha um tempo livre, eu poderia pirar, eu tinha mais horas livres pra poder criar. Hoje em dia, eu não tenho mais tempo, eu tenho prazos, eu tenho metas. Isso ai eu poda um pouco as coisas, hoje você precisa ser mais prático “o que vai funcionar?”, não tem mais tempo de arriscar. E também tem aquela malícia, depois de tanto tempo você já sabe o que funciona e o que não funciona. Hoje eu estou mais tranquilo financeiramente, porém a parte de criação eu sou mais cobrado. Porque eu não faço coisas só pra mim, eu faço coisas pagas. Eu sou produtor free lance. As vezes eu tenho pouco espaço pra fazer as minhas coisas por que eu tenho contas pra pagar, pessoa que me procuram pra fazer coisas pagas. E ai eu não tenho muito tempo pra ficar criando, é simplesmente fazer. Virar a madrugada e daqui a 3 dias tem que estar pronto. Naquela época, eu tinha música que começava e ia terminar depois de 3 meses. Eu não tinha prazo pra entregar nada. Eu só prezava pela qualidade. Ela tinha que ficar 100%. Eu esperava o tempo que fosse necessário. Se fosse demorar um ano, ia sair depois de um ano.

O que você acha desse lance de mais tempo ou menos, ajuda ou atrapalha? 3 dias é melhor do que 3 meses?

Isso ainda continua muito ruim, qualquer um que trabalhe com arte – música é arte né – qualquer um que trabalhe na área de criação, sabe que prazo mata qualquer tipo de criatividade.

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Os gêneros musicais sempre estão em ciclos, começo meio e fim. Nesses quinze anos de carreira, quais as modas que você achou mais legal?

Cara, foi muita coisa, muita coisa mesmo. Eu gostei muito de uma época que durou pouco, que é uma época de um chamado ‘Speed Garage’ que foi em meados de 98-99, acho que até 2000. Também nesse meio tempo teve o ‘Hard House’, e eu gostei muito dessa época, era um som legal de tocar. Esses estilos tocavam pouco aqui no Brasil, tocava muito lá fora. A cena sempre foi muito limitada aqui no Brasil, a coisa de “main stream” aqui sempre foi extremamente pop. Só a 97Fm dominava aqui, infelizmente era assim. O que rolava era o que a 97 tocava, se não toca, não é bom. Não importa. Mas como eu estava muito antenado com as coisas lá de fora, eu gostava muito dessa época.

Me fala um DJ ou uma música muito boa dessa época.

Ahh sempre o pai de todos, o cara que inventou a coisa toda, é o Arman Van Helden. Ele inventou o estilo, ele sempre fez coisas legais do Speed Garage, uma favorita do speed garage é a RipGroove do Double 99 (que não é dele)

Mas me fala uma música favorita do Hard House.

Ahh, tinha tanta gente. Deixa eu ver……pode ser o Dj Bad Boy Bill, ele fazia muita mix legal na época.

E então, nessa época do hard house, tinha muitos caras que faziam coisas antes que não era do hard house, que acabaram se destacando por causa do Bad Boy. O DJ Funky fez bastante coisas legais nessa época. O Booty Bass, é dessa época, que entrou um pouco no hard house. O Dj Assault também é dessa época.

Todos esses caras que faziam na unha, que era difícil. Porque hoje quem produz, sabe que é muito fácil fazer uma música. Você tem ferramentas pra caramba, de vários timbres e samples e softwares que fazem 80% do seu trabalho. Naquela época você tinha que ter: uma bateria rolland 808, uma 909, um tecladinho juno, um rolland TR303 – que fazia o bass line. E todos usavam a mesma ferramenta, mas eles conseguiam tirar sons diferentes, e hoje em dia você tem um monte de coisa diferente e sai um monte de som igual. Eu não consigo entender. Há muita preguiça que se tem hoje, naquela época se tinha muito mais criatividade do que ferramenta.

Me conta outro movimento muito legal que você viveu, mais pra frente.

Ai teve um movimento que eu fiz parte, é bom citar, mais ou menos em 2007-2008, eu fiz parte e eu vi crescer, foi o “Fidget House”. Eu gostava bastante dessa época, que tinha elementos que eu tocava em 94-95, só que a galera não conhecia e achava super novidade aquilo. Mas, essa era uma época bacana que eu gostei porque eu fiz muita produção, comecei a produzir bastante.

E qual foi a música desse movimento que te marcou?

Ahhhhh cara, Croockers né! Croockers nessa época fez muita coisa legal, eles dominaram muito a cena nessa época, e de 5 músicas 4 eram fodas e eram deles. Entendeu? Era assim porque era bom! Não tem que falar que era modinha, era porque eles faziam a diferença na cena, o som deles era foda, o som deles era a frente da época.

Vamos por na balança: você é mais DJ ou mais produtor?

Boa pergunta, boa pergunta….eu acho que eu sou uma mistura dos dois. Eu não faço uma diferenciação não. Mas a raiz minha, sempre foi ser Dj. E eu acho que vai ser sempre, eu não quero largar nunca de ser dj. E eu gostaria de ser mais DJ do que Produtor, mas o mercado ainda não permite que eu seja, e o meu trabalho durante o dia, também não permitiria. Por exemplo; se eu conseguisse ter a estabilidade e o ganho que eu tenho hoje trabalhando durante o dia, eu gostaria muito de viver só como DJ.

Você começou a dar aula como dj pra passar o seu aprendizado. Qual foi a maior lição que você teve na sua carreira, aquele ensinamento que você teve e leva pra vida inteira?

O maior aprendizado que eu tive até hoje é que não basta ter talento. Não é só isso que faz de você um grande profissional, ou ter destaque no que você faz. Depende muito da sorte, depende muito dos contatos principalmente, e do momento. É uma roleta cara, você não sabe o que pode acontecer. É tudo muito maluco. Eu poderia não estar aqui, se eu não tivesse conhecido você.

Mas você não tem nenhuma regra de ouro? Pra vida inteira?

Uma dica que eu tenho é sempre ser profissional. Da hora que acorda até a hora que você vai dormir. Ser profissional é sempre estar preparado para tudo, não depender de ninguém pra fazer o seu trampo. Pra chegar lá e falar ‘ahhh preciso de tal coisa pra executar legal.’ Não. Tenha suas próprias ferramentas, e dependa só de você pra fazer tudo.

Cara, você também tem que se especializar em tudo, você tem que ser poli, não mono. Entendeu? Você faz um monte de coisa ao mesmo tempo. “Ahh porque você chegou lá e você vai ter que tocar outro estilo, você vai ter que tocar uma coisa que você não esta acostumado a tocar” Sempre faça coisas que você não faria normalmente, pra você estar sempre preparado. Eu escuto de tudo cara, de tudo de tudo mesmo!

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Se eu precisar produzir uma música que esta fora do meu ritmo normal, eu vou produzir também. Então é estar sempre se especializando em várias coisas, não em uma só. Quem faz uma coisa só pode passar aquela onda, aquele momento, e amanhã você ser um cara largado ai, que não serve pra nada.

E o lance é você estar sempre se atualizando no que você esta fazendo. Sempre ouvir coisas novas, mas nunca deixando de conhecer o passado, porque o passado mostra muito do que vai acontecer no futuro. Muito das coisas é reciclado. Pra quem já conhece, como eu que já passei por algumas gerações, algumas modas, algumas tendências, eu sei que tudo se recicla. O que hoje a galera esta achando foda, pra mim já foi foda em 90, em 2000, então nada me deixa muito eufórico. Por que eu sei que isso já foi.

Bom voltando ao funk, Você tem alguma música e/ou artista favorito? Por exemplo: não conheço nada de funk, o que você me recomenda pra ouvir?

Tem um cara que eu sempre quis produzir, que eu gosto muito, que é o Nego do Borel. Ele é muito autêntico no que faz, o tipo de rima que ele faz eu gosto, o jeito que ele é meio …cômico, meio sarcástico. É o tipo que o funk precisa ter e que não tem mais.

E uma música?

O Passinho do Romano. Acho que foi uma puta sacada. Mesmo não sendo uma coisa muito elaborada e tal, você chegar e conseguir samplear umas coisas que você nem imaginava no funk, tipo umas frases árabes, aquela coisa que você pensa “eu não vou fazer isso nunca”, isso é muito besta, isso é muito óbvio. Mas samplear e fazer um beat minimalista, igual esta no romano, eu acho foda isso. Você fazer uma coisa simples, não tem tambor, não tem virada, não tem nada. É uma coisa absurda! Você fala ‘isso é música?’ Mas é! E pegou, virou uma tendência, todas as produções estão saindo nessa levada, com beats minimalistas, o funk de SP conseguiu fazer um funk diferente do Rio. Agora o funk de SP tem a cara de SP, não é mais funk, é Funk de SP!

Você tem alguma música favorita que há muitos anos e ela sempre soa legal?

Tem, várias. Eu sou um fã incondicional de um produtor dos anos 90, que chama Dj Tragic. E eu ouço muito as coisas dele, eu até gravei um set em homenagem a ele, porque ele é um cara que me influenciou muito no sentido de quere tocar e querer produzir. Ele dominou os anos 90, ele tem sei la, uns 15-20 hits dele nos anos 90,qualquer coisa que eu ouço dele é foda.

Ele nunca errou?

Nunca, ele veio daquela escola que você tinha poucos recursos e muita criatividade. Ele é o mestre em samplear as coisas, ele sampleia coisas que você nunca imaginaria e quando você vai ver você pensa ‘puts, como ele conseguiu?’.

E aquela música que você nunca enjoou? A sua favorita.

You dont know me – Arman Van Helden.

Essa é uma música que qualquer momento, qualquer lugar que eu escuto, muda meu ânimo.

Qual produção que você fez que você considera a melhor?

Ah, sem dúvida nenhuma foi o remix O Fortuna pro projeto Fun Classic.

Por vários fatores eu acho que essa foi a melhor. Por estar naquela época do abismo, do buraco de estar há 2 anos sem saber o que vai ser da sua vida, você conseguir fazer um negócio daqueles, mesmo com um monte de preocupação, é que da o brilho pra coisa. Eu não tinha muita técnica. Se você for ver hoje em dia, minha técnica é muito melhor do que aquela, eu faria ela muito mais elaborada, ou com muito mais qualidade sonora. Só que mesmo ela sendo ‘pobrinha’ daquele jeito, ela continua sendo foda.

Mesmo quem não gosta de funk, quando ouve, fala ‘esse tipo de funk eu queria ouvir mais’. É consenso, qualquer um, galera do rock, do rap, de música eletrônica pop, qualquer outro ritmo, fala ‘esse é um funk de verdade, isso é um funk que eu gostaria que tivesse mais na pista’.

Vai rolar um desconto pra quem ler a entrevista?

Hahahahaha a gente pode conversar né

Como você estruturou a sua aula, o seu curso de DJ?

O foco dessa aula, é tirar um pouco dessa preguiça que esta rolando com a galera dessa geração virtual. Onde você pode tocar com o notebook, o que facilitou pra caramba, e o pessoal esqueceu de como é ser um dj de verdade. Dj de verdade é o ouvido, é a audição, é música. Não é muito ficar olhando pra tela, não é muito, simplesmente deixar que o programa faça por você, escolha por você, então é querer mostrar como fazer a coisa de verdade, fazer a coisa manualmente.

Logicamente que eu não vou ser hipócrita ao ponto de falar que vai ser tudo analógico, tudo na raça. Tem a tecnologia que vem ai pra ajudar, mas ela só esta ai pra te dar uma auxílio. Ela não vai fazer o seu trabalho, ela vai ter ajudar a ser mais dinâmico, mais objetivo no que você quer fazer. Na questão de organizar suas músicas, procurar suas músicas mais rápido, que antigamente era impensável fazer isso. Antes você tinha um engradado com 50 vinis, se não tivesse ali, você não tinha e acabou. Ai você ficava devendo, você ficava limitado ao tanto de musicas em uma gig que você vai fazer. Hoje em dia você pode levar infinitas músicas em um notebook, e poder mescla-las. Fazer um set diferente e tal. Mas o lance é só isso. A parte da tecnologia só entra ai, no lance de você ser diversificado nas músicas.

No curso eu vou ensinar a achar o BPM manualmente, no seu ouvido. Saber selecionar uma música certa, no momento certo. Não só tocar TOP 10 do Beatport. Não é simplesmente tocar o que esta na moda. É você mesclar coisas antigas com coisas novas. E eu acho que é isso que faz de você um DJ. Saber tocar coisas diferentes ou coisas que não são daquele mesmo momento, e fazer com que soem natural aquilo no meio do set.

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Vamos supor que você não é o Carlos Nunez e te perguntassem :“Quem é o Carlos Nunez?” O que você responderia?

Ah, é um cara que a música faz parte 100% do tempo dele, e que ele não sabe viver sem. E a música até desconcentra ele em alguns momentos, por ser tão importante na vida, que tem momentos em que ele tem que se desligar da música pra fazer outras coisas. Por exemplo dirigir. Porque eu fico pensando: puts, essa música é de tal época, o compositor foi tal, gravou no estúdio tal, com aquela guitarra e enfim, acabo me desconcentrando e….é isso. A música é 100% do meu tempo.

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Acompanhe o Carlos nas redes sociais. Para mais informações sobre o curso de DJ, o e-mail é:
djcnunez@gmail.com

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2 Comments on Conheça a história do produtor e Dj Carlos Nunez

  1. Esse cara é fera! Aderi ao curso que ele está ministrando, e nem daria para dizer que é um curso. É uma troca de conhecimento que vai além de uma estrutura padrão, de uma relação professor/aluno estática. Ter um cara com a bagagem que ele tem, passando as ideias, as técnicas, mostrando como as coisas funcionam, foi algo que mudou minha visão sobre muita coisa nesse mundo da música. Me deu uma força para correr atrás, estudar, me dedicar. Recomendo, vale muito a pena, e fora as produções, que são, para dizer o mínimo, inovadoras. Mestre!

  2. Esse é o meu garoto! !! Muito boa a entrevista. Parabéns.

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