COLEI NUM FLUXO LEGAL E ILEGAL E NÃO CURTI O LANCE.

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A nova moda no funk de São Paulo se chama Fluxo – uma tipo de festa na rua, mas com a galera do funk. A primeira vez que ouvi falar desse tal ‘baile de rua’ foi no ano passado, parece que o movimento começou a tomar mais corpo e isso se popularizou pela cidade inteira, tendo fluxo em todas as regiões. A Mc Tha, 23, me contou que o fluxo não é uma coisa nova, que quando ela tinha 15 anos já rolava alguns lá em Cidade Tiradentes, mas ela concorda que agora tem em todo lugar, até na sua rua. Fiquei curioso pra conhecer esse Fluxo.

Acabou que no começo do mês fui no aniversário do Mc R1 na Nitronight e quando a balada acabou a gente esticou pro fluxo do Heliópolis, no beco da 3. Saímos da zona sul em 3 carros, um deles era de som. Achei que aquele evento seria o mais real possível do que se eu marcasse com os caras. Chegamos no Helipa e batemos em 2 fluxos vazios, nas esquinas não tinha nem rastro de lixo. O motorista falou ‘bora colar lá na 3, se não tiver a gente vai embora’. Adentrando na favela, apareceu um motoqueiro sem capacete, e logo ouvi ‘ah, lá em baixo deve estar rolando, senão ele não subia a rua assim’ e pimba, não deu outra.

Do banco de trás percebi uma galera que estava de pé com umas latas na mão, as 6:30 da manhã tinha apenas um carro de som e pelo menos umas 100-150 pessoas, dentre jovens e adolescentes, um mendigo muito louco que dançava sem parar e uns cachorros de rua. Sem contar os motoqueiros que faziam a farra no meio da galera, subindo e descendo as ruas.

Encostamos o carro e o motorista logo abriu seu porta-malas pra fazer o som. Nessa hora eu fiquei meio confuso, pois onde paramos dava pra ouvir bem o som do outro carro, mas isso não intimidou ele que logo soltou ‘Gordinho Gostoso’ pra avisar a rapaziada que estava ali. E cara, aquele lance foi foda, geral começou a dançar e se aproximou do carro. A galera que estava com a gente chegou junto e ficamos lá, curtindo o som.

Ficamos nessa esquina por uns 40 minutos, e o CD repetiu umas 3 vezes. Aconteceu do R1 ir lá no carro pra por uma música dele, o que era maneiro, mas depois voltava a mesma seleção. Pareceu que só eu me importei com esse fato. E o senhor da casa da frente que apareceu na janela com uma puta cara de sono e de raiva. Com certeza acordamos ele, de quebra, só na casa dele tinha uma placa ‘proibido ligar som automotivo’ o que…né, não foi respeitado.

Esse senhor acabou me chamando mais a atenção do que o fluxo mesmo, pareceu que ele ligou pra polícia algumas vezes, pois dava pra ver ele olhando pela janela e ao mesmo tempo digitando no celular. Depois de uns 20 minutos, ele desistiu e a polícia não apareceu.

Perto das 7:30 a galera resolveu colar no Faceburguer, um point do Helipa que promove o fluxo também. Lá foi mais daora. Tinha uma lanchonete, um bar, e só o nosso carro de som. P*rra, ai a coisa melhorou. Ficamos conversando com a nossa turma, umas meninas ficaram com a gente e ficamos lá até umas 9:30, depois o fluxo – que parecia um after pra mim – acabou. Durante esse tempo, diversos moradores passaram perto da gente com olhos de repreensão. Outros desviavam do lixo que se acumulava na calçada e na frente das casas.

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O segundo fluxo que eu fui, foi na Zona Norte. A sub Prefeitura da Casa Verde resolveu chamar as equipes de carro de som pra fazer um fluxo legalizado, ela também convidou os vendedores ambulantes que acabou ganhando uma ‘tenda’ tipo daquelas de praia. Acabei indo por curiosidade mas achando que organizar o desorganizado não ia dar muito certo.

Cheguei na ZN perto das 16:00. O local era no fim da avenida Inajar de Souza, e na altura que estávamos ficava a pista de um lado, o esgoto e a outra pista. Sabendo disso ficamos no lado dos carros de som, o que do outro lado era a pista das motos, que novamente, faziam uma farra. Eu perdi as contas de quantas vezes eu vi um cara esticando com a moto, empinando e voltando.

A polícia até que apareceu, acho que foi o mesmo lance, algum morador ligou. Ai passou um carro e os caras sumiram, 10 minutos depois, tudo voltou como se nada tivesse acontecido. Isso ficou por mais ou menos 1 hora, até que resolveram meter aquelas vans da PM, ai a festa acabou. Pros motoqueiros.

O Fluxo começou a bombar perto das 18 horas, quando anoiteceu. Aquilo parecia um formigueiro de gente, daquela hora até o fim, devo acreditar que rolou umas 10-12 mil pessoas. Não dava pra andar, uma hora tentei ir até o fim e travei no segundo carro numa linha com dez.

O som estava bem legal, o grave batia bem forte na gente, mas o mesmo problema das musicas acontecia. O hit “Parara Ti-bum” era tipo vinheta de comercial, aparecia a cada 10 minutos. Não só o lance da seleção ocorreu, mas diversas vezes havia 3-4 carros, cada um tocando uma música. Poucos foram os momentos em que uma linha de carros se conectavam e mandavam o mesmo som.

Percebi que as figuras de MC e DJ não deram as caras por lá. O lance do Passinho também ficou de lado. Tinha uma turma que dançava uma vez ou outra, mas nada que possa ser comparado com o que se vê em vídeos no youtube.

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Conclui que o fluxo é uma nova organização dos funkeiros. Seja pelo fator econômico ou por desejo próprio, eles foram para a rua. Não é a primeira vez que isso acontece, mas dessa vez chamou mais atenção. A coisa é quase um encontro de “galeras” na rua, sem um motivo singular – como ir no baile para ver um artista. O encontro é pra conversar e curtir.

No quesito música e cultura do funk, pouco se agrega. Não tem dança, não tem qualidade sonora, não tem um curador musical (leia DJ), o lance nem é exclusivo do funk. Nos dois casos ouvi de tudo, do eletrônico ao funk, do arrocha ao pagode baiano. É um rolê muito anárquico, cada um faz o que quer sem que haja uma ordem.

E esse foi o conflito que percebi no fluxo legal. O conflito de ‘ordem’ era gigantesco. A prefeitura tentou impor o modelo ‘líder e regras’ para uma galera que se auto organiza. Tanto que a regra era acabar as 22, e todo mundo obedeceu, mas uma boa parte do pessoal dali – incluindo os vendedores – foram pra outro fluxo. Ou seja, a festa não acabou, apenas mudou de local.

O espaço não era o melhor para aquela situação, ficou tudo muito apertado, não tinha espaço para se movimentar nem área de escape. O modelo estabelecido nas ruas da favela, com os comerciantes, acabou indo por agua abaixo quando se cobra uma taxa deles e que diretamente não se tem um retorno.

Pelo que vi o Fluxo se instaurou na cultura do funk paulistano. Não foi só eu que achei o movimento estranho, bati um papo com uns artistas de funk que também achavam foda o fato de acordar o morador, ou o lixo nas ruas, mas ouvia sempre a mesma resposta ‘fazer o que, agora o movimento esta aqui’.

Todas as vezes que o funk se reinventa, eu fico maravilhado de ver como um público que sofre diversos problemas, consegue superar isso tudo e ainda se reinventar. Esse lazer na rua, é um reflexo da falta de espaços para tal.

Provavelmente ainda cairei em outro Fluxo, torcendo para que melhorias dos próprios funkeiros aconteçam e todos saiam ganhando, sem que o Estado precise intervir e jogue a merda no ventilador.

1 Comentário on COLEI NUM FLUXO LEGAL E ILEGAL E NÃO CURTI O LANCE.

  1. Gostei da análise bem no estilo etnográfico, me ajudou muito a compreender o fluxo, o baile funk.

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