O produtor Maffalda mostra o novo modelo de produção.

 

O produtor paulistano Maffalda representa a nova forma de produzir música eletrônica. Antenado com todas as novas tendências, sua produção não segue um único gênero. O produtor vai abraçando tudo que ele gosta e no final a produção sai ganhando, pois recebe o melhor de cada movimento. Sem pretensões, sem metas e sem objetivos, a brincadeira começou a crescer e tomar forma, a ponto de levar Arthur para diversos lugares, inclusive aqui no Funk na Caixa.

Com apenas 19 anos, Arthur Gomes, morador da Vila Formosa, ainda não sabe o que fazer da vida. Acabou de se formar no Ensino Médio, passa a maioria das tardes revezando as tarefas entre ajudar a sua mãe com algumas fotos ou produzindo no seu estúdio comunitário. O espaço era um quarto, seu pai colocou a bateria lá, depois seus amigos ajudaram com outros equipamentos que tinham e assim surgiu o estúdio, que ele prefere chamar de caverna.

A falta de recursos nunca foi um problema pra ele. Seu primeiro computador veio em 2008. Ele não tinha outra forma de gravar, a não ser com aqueles microfones que vinham com a máquina. Só em 2010 que teve acesso a um PC melhor e baixou o Fruity Loops.

E ai surgiu suas primeiras produções, antes disso ele só se divertia com os amigos. Entre uma finalização e outra das músicas da banda, foi aprendendo como utilizar melhor os programas de produção. Foi no esquema fução mesmo que aprendeu a mexer nos equipamentos “Se tem um método de fazer uma coisa, eu vou desmontar e vou fazer do meu jeito”

Das produções veio o projeto Maffalda, que começou como brincadeira de internet. Fazia piada com virais do YouTube, uma irreverência sonora usando vídeos também. E nessa zoeira foi que aprendeu a editar vídeo, música e se diz um pupilo da FYT ‘Faculdades Youtube”. Sem querer pagar de produtor fodão, ele entra na sacanagem do seu público que também é zoeiro. “Eu nem ligo, eu gosto. Eu respondo os comentários na moral, é o jeito mais fácil de ficar perto do meu público”.

Sem ter um modo único de produzir, as ideias vem surgindo e ele vai colocando no papel “Tem coisa que eu tô andando na rua, pensando numa música e ta tocando outra música na outra rua e eu penso ‘hm, elas estão na mesma afinação, acho que da pra juntar as duas’ ”. Assim surgiu o remix da Ludmilla, conta o produtor.

Nenhuma de suas produções foi idealizada e feita tudo de uma vez, o processo de criação do produtor é mais difícil do que parece. Porque se ele tem outra ideia nova no meio dos trabalhos, ele apaga tudo e começa de novo. Sem pressa de lançar, ou de perder o timing da música. O importante é ele gostar. “As musicas “Passinho do Romano” e “Pensamento Tipico da Esquerda Caviar”, são as mesmas musicas mas em BPM diferente, são outras variações”

E essa ausência de formato de criação ajuda na hora de colocar todos os estilos que ele gosta numa mesma música. Seu desejo era ter um projeto musical pra cada estilo que gosta, mas estava dando muito trabalho atualizar todas as redes, então ele tem colocado todos os estilos na mesma produção “Acho mais fácil”, conta.

“Eu gosto muito de funk! Mas meus pais não sabem”. Arthur contou que com 10 anos já escutava funk na rua, era aquela época São Paulo sofreu alguns ataques, então era inevitável não encontrar essas musicas. Ele também contou que ouviu muito Furacão 2000, DJ Malboro e outras influências cariocas.

“Hoje em dia eu consigo compreender muito melhor [o funk] do que antigamente, eu achava que era só pra dançar e tal. Tem letras que não são pra agregar nada na vida, por ex: “faz meu pau de trampolin”. Essa não é uma música que você para e pensa “nossa, que filosofia”. Eu achava que isso era descartável, só pra dançar, mas hoje eu vejo o outro lado.”

Falando do funk, ele percebe o ponto de vista técnico, a melodia, a ousadia de cantar esse tipo de letra e começou a pesquisar mais sobre a história do movimento e dos artistas, como Zóio de Gato. O simples fato dos MCs falarem da sua própria quebrada faz muito sentido “isso não tinha onde eu morava” conta o produtor “nunca ouvi nenhum funk sobre a Vila Formosa.”

Depois de mais velho procurou os sons que ouvia quando adolescente e compreendeu de uma outra forma o movimento do funk.

Maffalda percebe que hoje, existe uma aceitação maior com o funk. Ele acredita que isso aconteceu por misturar mais gêneros com o funk e também por alcançar a grande mídia, isso ajudou a diminuir descriminalização que existia com o funk. “Quando você assistia Hermes e Renato, sempre que eles iam roubar alguma coisa eles soltavam uma base de funk de fundo. E sei lá, era engraçado na época, mas você vê hoje, e vê que tem um quezinho de preconceito, parece que uma coisa esta atrelada a outra, mas não quer dizer que isso seja realmente.”

Lançado em Março, aqui pelo Funk na Caixa, o EP com o carioca “Carlos Beats” fluiu de forma natural. Maffalda conta que um aceitava bem a ideia do outro. A distância não atrapalhou em nada, cada um colocava o melhor que sabia para concordar com o trabalho do outro.  E a collab resultou em músicas que somavam um com a habilidade do outro.

Com certa insegurança no seu próprio trabalho, Arthur prefere soltar previews no soundcloud pra ver a aceitação do trabalho. Se for positiva a resposta, ele termina, senão arquiva “Nesse notebook com 5 meses de uso, já tem muito projeto que esta encostado porque eu não sei o que fazer.”

Ele explica o porque dessa insegurança “No final das contas eu estou sozinho. Se a internet cair, não tem ninguém pra me ajudar”. Maffalda teve o apoio dos pais para começar a produzir, tanto que seu pai tem a bateria e até hoje cuida dela, mas eles não acompanham o trabalho do filho. Sua mãe, religiosa, não pode nem saber que tem funk no seu trabalho, e o pai, que até entende de música, não entende o conceito de música eletrônica, cena, remixes e afins. Assim o seu trabalho fica todo baseado na sua própria opinião. E dos seus fãs que ajudam com os comentários.

Maffalda mesmo com todas essas visibilidade que recebeu recentemente, anda em dúvida sobre o seu futuro. Com 19 anos, não sabe o que estudar e no que trabalhar, e acredita que as produções podem te levar a um futuro melhor, mas ainda não esta seguro com isso e fica em dúvida, muito pela falta de apoio da família também – que cobra muito pra ter um trabalho e um caminho na vida.

Aproveitei esse encontro pra fechar o texto com um bate-bola rápido com o produtor. De quebra tem o remix que Maffalda fez com a jovem Bad$ista para My Pussy é o poder. O download é livre, uma homenagem da dupla a Valeska, para baixar é só clicar aqui: My Pussy é o Poder (Maffalda e Bad$ista remix) (clique com o direito e ‘salvar como’)

Bate bola:

FNC: Qual foi a sua melhor produção?

MFD: Pensamento Típico de Esquerda Caviar – VIP (aqui tem todos os timbres que eu quero)

FNC: Qual foi a pior?

MFD: A OMG com os vocais do USHER (cara eu odeio aquilo do fundo do meu coração, eu não sei porque ainda esta ali)

FNC: A melhor produção que você já ouviu?

Cashmere Cat – Wedding Bells (é a coisa mais legal do mundo, tem uma variedade de timbres e é tudo tão bonito, tão bem colocado)

FNC: Programa pra produzir?

MFD: Ableton live 8

FNC: A coisa mais inovadora que surgiu recentemente?

MFD: Além da internet?

FNC: Um recado pros fãs que te admiram.

MFD: Se eu falar ‘não desista do que vocês querem fazer’ é muito clichê? (porque eu já pensei em desistir muito, e os comentários que me ajudaram a continuar)

FNC: E um recado pros haters da sua página.

MFD: Continuem acessando que isso dá muito número pra mim!

FNC: Qual foi o melhor elogio que você já recebeu?

MFD: ….No dia em que Omulu disse que gostava do meu som. Esse reconhecimento foi importante pra mim. Esse comentário me fez acordar e ver ‘talvez isso seja mais sério do que eu penso’.

FNC: E qual foi a pior crítica que você já levou?

MFD: Um cara me pediu uma instrumental e disse não, ai ele falou “você é um lixo de ser humano”. Nossa, aquilo me machucou. Por isso que as vezes eu solto a instrumental, pra não me chamarem disso de novo.

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6 Comments on O produtor Maffalda mostra o novo modelo de produção.

  1. tá explicado o porque soltou o piano de ebae 47
    desejo todo sucesso, cara. Ce é mt bom msm

  2. O Maffalda é foda demais! Bela matéria. <3

  3. ZL pride!

    não para não rapaz!

  4. Melhor pessoa desse mundo

  5. MAFFALDA TEAM!!!!!!!!!!

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