As mil tretas que envolvem o Fluxo do Helipa.

Passamos uma noite no FaceBurguer tentando entender as vantagens e os conflitos do movimento.

Texto: Victória Khatounian
Fotos: Aline Pinheiro

Chegamos no fluxo do Heliópolis, no dia 8 de julho, no banco de trás inexistente de uma picape que tocava Wesley Safadão. Nossa ideia era acompanhar o fluxo e entrevistar Erik Romero, o dono do Faceburguer – que hoje é um dos points no Fluxo do Helipa. Quando pegamos nossa carona com os amigos do Erik e chegamos na “matriz”, lá pela meia-noite, encontramos uma roda de samba e movimento ainda fraco. Se no começo da noite foi difícil entender a relação do fluxo e do funk com o estabelecimento, não ficou muito mais fácil no final.

Como o próprio nome já indica, o fluxo é um encontro de pessoas, não exatamente marcado, para ouvir funk na rua. Não tem lugar ou horário fixo, é literalmente um vaivém de jovens afim de curtir um som e dançar sem precisar ir pra balada. Mais ou menos como o que acontece nos postos de gasolina.

“O fluxo começou há mais de 10 anos, com som de festa colocado na rua. Aí o pessoal foi colocando som automotivo e um tentava competir com o outro, tocar mais alto. Hoje em dia, quando o fluxo tá pegando mesmo, tem uma média de mais de 20 carros na rua”, conta Eduardo Costa. Hoje com 22 anos, ele  frequenta o fluxo (não só o do Helipa) desde os 12 e faz parte da equipe “Bem Bolado”, que conta com 7 dançarinas, 43 membros e 34 carros.

Cada equipe tem suas vinhetas, que são tocadas no começo das músicas, adesivos, camisetas e, claro, os carros – geralmente rebaixados, com insufilme e rodas de 10 mil reais pra cima. “Só com o som eu já gastei 10 mil reais. Tem gente aí que gasta muito mais. Tem carro na favela com som avaliado em 40, 50 mil reais”, ele conta.

_DSC0065fnc

Carro de Som no Fluxo

O investimento tem pouco retorno: “O que resta na segunda-feira é o prejuízo. No máximo, a gente ganha um troféu quando participa de eventos. Os bares parceiros dão uma, duas garrafas, porque a gente atrai muita gente pra lá e isso também é bom pra eles … Mas a gente faz pela diversão mesmo”.

Em dias de fluxo, o Helipa atrai cerca de 20 mil pessoas, segundo as estimativas dos próprios moradores. São cinco ruas lotadas durante a madrugada. Erik Romero, que sempre morou lá, conta que o movimento nunca se concentrou perto do Faceburguer. Curiosamente chamada de “Rua da Alegria Popular”, o endereço começou a ser ocupado por carros de som em meados de 2014, um ano depois da abertura do bar/lanchonete ali.

A ideia de abrir o Faceburguer surgiu em 2011, dois anos depois de Erik sair da cadeia. Ele foi preso por assalto em 2006, a uma semana do seu aniversário. Depois de cumprir pena por três anos, ele afirma: “Eu tive que passar por tudo aquilo para aprender e ser quem eu sou hoje”. Com a ajuda de um primo, Erik reformou a garagem de casa e montou a lanchonete sem muita pretensão. Três dias antes da inauguração, alguém tirou uma foto da fachada e postou no Facebook – foram mais de 2 mil curtidas. Foi aí que ele começou a acreditar de verdade no negócio: “Quando a gente abriu, foram mais de 300 lanches em menos de duas horas, fora as porções… Eu tive que me reestruturar”. Hoje, são duas unidades do Faceburguer e o recém-criado Whatsbar, dedicado às bebidas. O sucesso foi tanto que, naturalmente, o lugar virou ponto de encontro. Além do mais, todas as casas têm banheiro e funcionam até tarde, o que fez com que o fluxo acabasse se concentrando ali.

_DSC0041fnc

Erik tirando onda na segunda filial do FaceBurguer

Erik diz que não estimula diretamente os eventos, mas inegavelmente se beneficia deles: “Eu vendo muito mais em dia de fluxo. Pra mim, seria muito melhor só vender bebida nesses dias, mas eu tô tendo problema com a polícia”. Segundo ele, nos últimos dois meses, a polícia está instalando uma base comunitária na frente da lanchonete às sextas, sábados e domingos. O que, obviamente, atrapalha os negócios:  “Eles chegam batendo, jogando bomba. E o povo hoje em dia quer ser livre – pra fumar, pra beber, pra conversar, pra ficar bêbado… Se eles montam a base, ninguém vai ficar aqui”. Eduardo concorda: “Se não fosse a polícia, eu ficava no fluxo de sexta a domingo”.

Essa relação com a polícia é um problema antigo no mundo do funk – tanto que quem trata disso são as Secretarias de Segurança, ao invés da Secretária de Cultura. Na semana seguinte à da nossa visita, rolou uma reunião dos moradores do bairro que se incomodam com o barulho e os problemas que o fluxo causa na comunidade. Estavam presentes a Polícia Civil, Polícia Militar, Guarda Civil Metropolitana e um responsável pela Subprefeitura do Ipiranga. Mesmo depois de 2 horas de debate, nenhuma decisão foi tomada, e ficou claro que a polícia só atrapalhava o comércio sem resolver de fato o problema, já que o fluxo se dispersava em outras ruas onde não estava a viatura.

Mas não são só os trabalhos de Erik e outros comerciantes que saem prejudicados com a presença da polícia na favela. Inclusive, justamente no dia em que aparecemos por lá a festa acabou mais cedo. Bem quando o fluxo começou a engrenar, depois da 1h da manhã, percebemos uma dispersão e o som foi desligado. Perguntamos o que tinha acontecido: o comando mandou parar. Entendemos que tamanha concentração de gente estimula o consumo (de diversas formas) nas redondezas, mas que, ao mesmo tempo, gente demais atrai atenção indesejada das autoridades.

_DSC0061fnc

Anderson (sócio) e Erick na frente FaceBurguer

Quem mora na favela têm suas queixas. No dia em que colamos no Helipa, um morador tentou chegar de carro até sua casa, em uma rua tomada pelo fluxo. Se ele avançou 50 metros em 1h, foi muito. Quanto ao lixo que fica nas ruas, Erik tenta fazer sua parte – ele mesmo recolhe o que pode e paga a moradores para ajudarem no serviço, ajudando também a complementar a renda de quem precisa.

José Nilton, que tem um bar perto do Faceburguer, também considera o fluxo uma fonte importante de renda – mas mesmo ele se incomoda com o barulho alto. Até o próprio Erik confessou que se mudou por conta disso, indo pra uma casa mais afastada do olho do furacão: “A gente tem que ser sincero. Som muito alto na frente da casa dos outros incomoda mesmo”. Pra compensar um pouco o transtorno e manter uma política de boa vizinhança, ele dá cestas básicas e ajuda moradores que passam necessidade.

Tentando achar o equilíbrio preciso nesse jogo de interesses, Erik quer mudar o conceito dos seus empreendimentos. Atrair um público mais “tranquilo”, em dias e horários diversos, e evitar concentrar seus esforços em dias de fluxo – se distanciando, assim, de possíveis problemas. Até o momento, esse malabarismo parece estar dando certo: ele já pensa em mais uma filial do Faceburguer. Com o mesmo sendo de comunidade, Eduardo está organizando um show do MC 2K grátis na favela.

1 Trackbacks & Pingbacks

  1. “O direito a diversão e o direito ao descanso das pessoas da comunidade.” As diretrizes da prefeitura em relação ao Fluxo. | Funk na Caixa

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.

*